quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Crítica ao Ensino de Literatura. Como tudo começou.

Durante o segundo semestre de 1996, quando fui chamado a participar, juntamente com outros quatro colegas, de um seminário sobre Metodologia do Ensino de Literatura, tratando especificamente das estratégias a adotar em sala de aula ao se trabalhar com o texto literário, fiz um questionamento cujo alcance a classe parece não ter compreendido. Na ocasião, perguntei se não estava na hora de deixarmos a teoria em segundo plano para darmos mais atenção ao texto, às suas mensagens.

Uma das maiores preocupações minhas enquanto estudante de Letras, e, por conseguinte, estudioso da Literatura, era a de buscar uma nova postura para o professor no trato com o texto literário. A prática na Universidade tem sido invariavelmente a de nos sujeitar às mesmas e velhas táticas do ensino de Literatura empregadas nos ensinos Fundamental e Médio. Manda-se o aluno ler um determinado livro e, em seguida, pede-se-lhe que responda a um questionário, cujas questões seguem basicamente o mesmo roteiro de elaboração: "Segundo o crítico literário tal, a obra tal apresenta tais características de tal período literário. Aponte quais são estas características, citando os capítulos onde elas são mais evidenciadas." E lá vamos nós, pobres iniciantes na Literatura, ainda que a Universidade teime em dizer que somos veteranos no assunto (burros, mas veteranos?), vasculhar o livro tal em busca das tais características apontadas pelo crítico literário.

Minha aversão a esse tipo de estudo literário é mais que justificável. Afinal, que proveito podemos tirar de um texto, sobretudo o literário, riquíssimo em experiências de vida, se, em vez de o lermos com nossos próprios olhos e o sentirmos com nosso próprio coração, temos que o ler e sentir com os olhos e o coração do crítico literário tal, assim como no segundo grau tínhamos que ler e sentir como lia e sentia o professor? Onde fica a nossa leitura pessoal, o nosso conhecimento de mundo, a nossa percepção (que cada um possui em um grau específico)?

Mais grave ainda é querer que interpretemos o livro tal com o mesmo discernimento do crítico literário tal, que passou 10, 20, 30 anos debruçado sobre ele. O resultado é que ficamos num frustrante meio-termo, sem entender direito o discurso do crítico literário tal e sem ter um discurso próprio, obrigados que somos a nos expressar sempre com ideias e pensamentos que não são nossos. Assim nos tornamos todos papagaios. Triste condição porque papagaio não aprende a ler, escrever ou pensar. Papagaio só aprende a repetir. E o que mais podemos querer de um Curso de Letras, senão que nos ofereça os requisitos mínimos para que possamos vir a ter certo domínio sobre os atos de ler, escrever e pensar?

Devo salientar que uma das coisas que eu mais lia no curso eram os prefácios ou as orelhas dos livros de crítica literária. E se minha memória não me trai, uma das frases que eu mais via era mais ou menos do tipo: “30 anos de árduo trabalho de pesquisa trazem a público mais essa grandiosa obra, indispensável para qualquer biblioteca”. Na verdade, as frases tinham muito mais glamour (o que eu chamo de pavoneamento), mas na essência eram parecidas com isso. Pois bem, 30 anos de árduo trabalho de pesquisa foram necessários para que o crítico literário X tirasse suas conclusões sobre o que é Romantismo Realista, Parnasianismo, Modernismo, a poética de Pessoa, a prosa roseana etc. Mas nós, gênios como nunca houve ou haverá em solo terrestre, tínhamos três ou quatro semanas para ler, entender e reproduzir em provas e/ou trabalhos um discurso cuja construção exigiu 30 anos de estudos. Resultado: nosso discurso não era nem o discurso do crítico literário nem o nosso. O que era então? Boa pergunta.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Os burros mais geniais do universo.

Nada poderia ser mais instigante para uma mente questionadora do que ouvir “profissionais do ensino” afirmando o tempo todo: “Vocês são burros. Não sabem ler, escrever, muito menos pensar!”. Quantas vezes ouvi isso? Só Deus sabe. Mas por que afirmavam isso? Essa me parece ser uma pergunta bastante razoável para um espírito inquieto. E minha mente inquieta sempre respondia: “de duas uma, ou você está sendo chamado de incapaz ou está sendo motivado a reagir!”. Ora, reagir como? Com o que a Universidade deixava de ensinar? Com o que aqueles mesmos “profissionais” que nos acusavam de ineptos não nos ofereciam? Então só sobrava uma opção: nós éramos realmente burros.

Mas se éramos, por que, cargas d’água, exigiam de nós o que só se exige dos gênios? Você, amigo(a) que me lê, estudante de Letras, seria capaz de imaginar alguém que não sabe ler, nem escrever, nem pensar, explicando, “com suas palavras”, a relação significante-significado e tantos outros conceitos da Linguística, a partir das palavras de um Saussure, um Chomsky, um Peirce? Pois bem, era o que exigiam de nós. E era um deus-nos-acuda, longas e longas noites sem dormir (quanto tempo perdido por nada) tentando decorar o discurso dos “grandes linguistas”, que aprendi a odiar, sobretudo o Chomski porque a professora brigava nas aulas quando alguém pronunciava incorretamente o nome dele.

Quando entregávamos os trabalhos (as perguntas devidamente respondidas no mais puro estilo decoreba), era uma salva de palmas, uma cerimônia muito parecida com a entrega do oscar hollywoodiano. A professora beirava o orgasmo ao ler respostas brilhantes, “verdadeiros tesouros do saber linguístico”, que na verdade muito pouco ou nada tinham de mim, de nós, mas quase tudo, ou tudo mesmo, de Saussure, Chomsky, Peirce e cia. Por instantes éramos os burros mais geniais do universo. E a professora era a própria personificação da felicidade, da satisfação, da “sensação do dever cumprido”. Não-cumprido, na minha concepção. Mas se ela estava feliz, quem era eu para pôr água no champanhe? Deixemo-la então deitar no berço esplêndido da ingenuidade ou do cinismo de considerar que nossas respostas eram fruto de algum aprendizado.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Nossos Cursos de Letras não formam ninguém

Não vamos pegar um aluno que passou 11 anos submetido a um ensino deficitário, que não sabe ler, escrever, interpretar textos etc. etc. etc. com a pretensão de em 4 anos de Curso Superior transformá-lo em um profissional competente.

Nada é mais coveniente para quem não quer “pôr a mão na massa”, “arregaçar as mangas”, “suar a camisa” do que um belo pressuposto. Pois o pressuposto acima reflete bem o pensamento reinante no círculo acadêmico. E como resultado você tem cursos de Letras que não formam ninguém porque pressupõe-se não haver ninguém apto, isto é, suficientemente preparado para uma formação decente.

Esse modo de pensar é muito cruel porque é como se a Universidade dissesse para o aluno: eu não tenho nada a ver com suas deficiências ou com a ruindade do ensino. Portanto, o azar é seu. Foda-se! Mas tal afirmação é um tiro no pé porque, ao fazê-la, a Universidade não só está deixando claro que nada vai fazer pelo aluno, mas também afirmando categoricamente que ela não tem nada a ver com a ruindade do ensino nos níveis Fundamental e Médio. Ora, se a Universidade nada tem a ver com o pato, quem terá? O Vaticano? Quem a cada semestre despeja profissionais no mercado de trabalho, muitos deles para suprir as necessidades de mão-de-obra nos ensinos Fundamental e Médio? Que instituição deveria ser o berço das transformações no campo social, político, científico etc.?

E o pior é que a Universidade não se contenta com tirar o dela da reta. Ela trata é de prolongar a ruindade cometendo, em seus cursos, os mesmos erros verificados nos ensinos Médio e Fundamental. A começar pela grade curricular com disciplinas sem nenhuma serventia, NENHUMA MESMO!, e uma série de aberrações, as quais o(a) leitor(a) encontrará disseminadas, aqui e ali, nos textos que seguem.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Mas a semente, apesar do solo inóspito, germinou.

Tendo enfim encontrado uma mente que fez inquietar a minha, pus-me a imaginar como seria o ensino que eu não tive. Não tardei a concluir que esse tal ensino nada tinha a ver com o que eu vinha tendo na Universidade. O curioso é que eu, um reles estudante, um sobrevivente da barbárie pré-acadêmica nos bancos dos ensinos Fundamental e Médio, de repente me via como um ser dotado de sabedoria e discernimento, capaz, veja só, de questionar o ensino que a Universidade vinha me oferecendo. Mas foi bem isso que aconteceu.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Faça-se a luz!

Tudo corria como o de sempre até que um dia pintou um professor magricelo. O cara entrou na sala para ministrar a disciplina Leitura Crítica, que, entre outras coisas, propõe ensinar o aluno a ler nas entrelinhas, a estar atento às mensagens subliminares do texto, sobretudo o literário. E de repente lá estava ele falando de Galileu, Copérnico, Cristo, Einstein, Nero, Zeus, Freud. Minha mente atrofiada, até então acostumada ao raciocínio raso e incapaz de “enxergar um palmo à frente do nariz”, foi logo sentenciando: o cara é maluco, o que toda essa gente tem a ver com ensino de Literatura e Língua Portuguesa?
Esse cara, até hoje penso, foi um ET que baixou na Terra por uns instantes para nos dizer: “Como acadêmicos, vocês são pensadores em cujas mãos está o poder de propor mudanças e precisam agir como tal”.

Essas palavras operaram em mim um verdadeiro milagre. Finalmente alguém disse o que eu esperava ouvir. Finalmente alguém me fazia sentir o que eu esperava sentir enquanto aluno de curso superior. Finalmente eu me via como alguém capaz de contribuir de alguma forma para o progresso da sociedade que me concedera a oportunidade de freqüentar o círculo acadêmico.

A partir de então aprendi, com esse cara, a ter senso crítico. Sabe-se lá o que é isso? Talvez esteja para o espírito humano como a descoberta do fogo está para a história da humanidade. Chegara para mim o grande dia do “faça-se a luz!” (o Fiat Lux do Gênese bíblico).

Infelizmente aquele cara, o suposto ET, não ficou conosco muito tempo. Teve que tirar o time de campo por, entre outras razões, “reprovar alunos demais”*, e ficamos à mercê daqueles que fazem bom uso do discurso, adoram falar em ensino público, gratuito** e de boa qualidade, mas na prática andam de marcha-à-ré, praticando o não-ensino, a não-formação-de-profissionais-aptos-a-propor-mudanças-em-sua-área-de-atuação.

*O Cara “ousava” reprovar alunos num período em que o Governo, para ser bem visto pelos investidores (países do 1º mundo) e órgãos internacionais (UNESCO, ONU e cia.), extinguira a reprovação. Imagine a satisfação dos gringos ao folhear o relatório do Governo e ler que no Brasil o índice de reprovação é zero. Com essa “jogada de gênio”, o país saíra da lista negra onde figuravam os países que pouco se preocupam com a educação para figurar no ranking dos países que levam a educação a sério, muito sério. É brincadeira?

**Falar em ensino gratuito é de uma ingenuidade ou cinismo sem tamanho. De onde vem o dinheiro que o governo aplica nas instituições da rede pública de ensino? Acaso não é do nosso bolso, via pagamento de impostos? Então não faz o menor sentido empregar o termo gratuito como referência ao ensino ministrado nessas instituições. Nós pagamos para estudar, sim senhor!

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Infelizmente era!

Uma Instituição destinada a preparar o aluno para ser capaz de operar transformações em sua área de atuação. Foi com esse conceito pessoal de Universidade que cheguei ao Curso Superior. Tinha grande curiosidade de saber como era o convívio no círculo acadêmico, afinal o adjetivo superior suscitava em mim alguma expectativa. Bastou no entanto um dia de aula no Curso de Letras para que o risco do bordado se formasse em minha mente, que, apesar do longo processo de atrofiamento a que fora submetida até então nos bancos escolares, nos níveis Fundamental e Médio, ainda era aclarada por uma sutil luz de vela.

E essa quase imperceptível claridade foi bastante para eu ver que nada mudara. Uma sala, um quadro-negro, professores se expressando lá na frente, cada um ao seu modo e estilo e, o que causou maior impacto, a imagem que sempre usei como exemplo nas minhas conversas com colegas e pré-vestibulandos: a fila de carteiras se sucedendo até o fim da sala.

Lembro-me muitíssimo bem do tour que meus olhos, num misto de serenidade e desapontamento, fizeram pelo ambiente, como que desejando que “a coisa não fosse bem assim”. Infelizmente era.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Vida é argumento

Escreve e diz o que tu queres, há de ser tudo da lei. Desde que você argumente, é claro!

Uma das coisas que entendi, tão logo minha mente assumiu o adjetivo inquieta, é que vida é argumento. Quando somos criancinhas, espíritos por corrigir, aprendemos que argumento é sinônimo de cinto, chinelo, cabo de vassoura e, para os mais antigos, vara de marmelo. Eu explico. O filho diz ao pai: “pai, hoje vou nadar com meus amigos lá na represa!”. O pai raspa a garganta, engrossa a voz e diz: “de jeito nenhum!”. O filho questiona: “por que não, pai?”. O pai “retruca”: “porque não!” É assim uma, duas, três vezes, até que o pai perde a paciência e põe em ação o cinto, o chinelo etc., estes sim “argumentos” irrefutáveis.

Mas onde quero chegar? Acontece que não somos criancinhas a vida inteira. Chega um momento em que os instrumentos de repressão não são mais cabíveis, um momento em que devemos explicações, em que o “porque não” já não resolve. Se antes nossos pais nos impediam de ir nadar com os amigos lançando mão de “instrumentos repressores”, agora, enquanto pessoas maduras, produtoras de textos de toda ordem (vida é texto), é preciso explicar, apresentar e defender ideias, opiniões, pontos de vista, teses. No lugar do cinto, do chinelo, do cabo de vassoura e da vara de marmelo estão agora nosso grau de conhecimento, de discernimento, nossa capacidade de expor com clareza e objetividade o nosso pensamento, nossa capacidade de transformar textos, de pegar discursos de terceiros e utilizá-los como matéria-prima para nossos próprios discursos - intertextualidade. Quer coisa mais linda que isso? Infelizmente o sistema de ensino no Brasil não nos tem dado a chance de viver tal experiência.