quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Infelizmente era!

Uma Instituição destinada a preparar o aluno para ser capaz de operar transformações em sua área de atuação. Foi com esse conceito pessoal de Universidade que cheguei ao Curso Superior. Tinha grande curiosidade de saber como era o convívio no círculo acadêmico, afinal o adjetivo superior suscitava em mim alguma expectativa. Bastou no entanto um dia de aula no Curso de Letras para que o risco do bordado se formasse em minha mente, que, apesar do longo processo de atrofiamento a que fora submetida até então nos bancos escolares, nos níveis Fundamental e Médio, ainda era aclarada por uma sutil luz de vela.

E essa quase imperceptível claridade foi bastante para eu ver que nada mudara. Uma sala, um quadro-negro, professores se expressando lá na frente, cada um ao seu modo e estilo e, o que causou maior impacto, a imagem que sempre usei como exemplo nas minhas conversas com colegas e pré-vestibulandos: a fila de carteiras se sucedendo até o fim da sala.

Lembro-me muitíssimo bem do tour que meus olhos, num misto de serenidade e desapontamento, fizeram pelo ambiente, como que desejando que “a coisa não fosse bem assim”. Infelizmente era.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Vida é argumento

Escreve e diz o que tu queres, há de ser tudo da lei. Desde que você argumente, é claro!

Uma das coisas que entendi, tão logo minha mente assumiu o adjetivo inquieta, é que vida é argumento. Quando somos criancinhas, espíritos por corrigir, aprendemos que argumento é sinônimo de cinto, chinelo, cabo de vassoura e, para os mais antigos, vara de marmelo. Eu explico. O filho diz ao pai: “pai, hoje vou nadar com meus amigos lá na represa!”. O pai raspa a garganta, engrossa a voz e diz: “de jeito nenhum!”. O filho questiona: “por que não, pai?”. O pai “retruca”: “porque não!” É assim uma, duas, três vezes, até que o pai perde a paciência e põe em ação o cinto, o chinelo etc., estes sim “argumentos” irrefutáveis.

Mas onde quero chegar? Acontece que não somos criancinhas a vida inteira. Chega um momento em que os instrumentos de repressão não são mais cabíveis, um momento em que devemos explicações, em que o “porque não” já não resolve. Se antes nossos pais nos impediam de ir nadar com os amigos lançando mão de “instrumentos repressores”, agora, enquanto pessoas maduras, produtoras de textos de toda ordem (vida é texto), é preciso explicar, apresentar e defender ideias, opiniões, pontos de vista, teses. No lugar do cinto, do chinelo, do cabo de vassoura e da vara de marmelo estão agora nosso grau de conhecimento, de discernimento, nossa capacidade de expor com clareza e objetividade o nosso pensamento, nossa capacidade de transformar textos, de pegar discursos de terceiros e utilizá-los como matéria-prima para nossos próprios discursos - intertextualidade. Quer coisa mais linda que isso? Infelizmente o sistema de ensino no Brasil não nos tem dado a chance de viver tal experiência.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Pontapé inicial

Leitora amiga, leitor amigo, de acordo com o Código Nacional de Trânsito trafegar na contramão é infração gravíssima e sujeita o infrator a uma multa vultosa e, dependendo do humor do ‘Seu Guarda’, pode acabar até na apreensão do veículo. Mas, como não se trata aqui de um motorista ao volante, não vejo problema em propor a contramão como a direção correta. Por uma razão muito óbvia: se a direção que deveria ser a correta, e pela qual eu deveria trafegar, me leva para o abismo, eu tenho mais é que andar na direção contrária. Estou certo?

Bom, mas deixemos de lado as metáforas e entremos no assunto. Neste blog faço críticas ao ensino a que fui submetido desde que me entendo por gente, classificando-o como ensino-para-papagaios. Paralelamente, proponho a prática do ensino-formador-de-profissionais-capazes-de-propor-mudanças-em-sua-área-de-atuação (o ensino que eu não tive). E entre uma crítica e outra, uma proposta e outra, aproveito para apresentar algumas considerações sobre os atos de ler e escrever, tendo como inspiração minha própria vivência no mundo das letras escritas e faladas.

Basicamente trata-se de um paralelo entre duas modalidades de ensino, uma que fatalmente leva ao assassinato da capacidade de discernimento do aluno - porque sua mente é transformada num mero repositório de informações - e outra que resulta na conquista da autonomia, quando então o aluno é dono de um discurso próprio e sabe expressar-se por suas próprias idéias. E, como tal, é capaz de propor mudanças e contribuir para o aperfeiçoamento teórico e prático de sua área de atuação.

Como adiantei no texto "Antes de mais nada", estou plenamente convicto de que a frustração por não ter encontrado na Universidade ambiente e prática educacional dignos dessa segunda modalidade de ensino não é privilégio meu, mas sentimento de muita gente. Gente que é, assim como eu próprio fui, vítima de profissionais (mestres, doutores e pós-doutores de meia-tigela) para quem as críticas que aqui faço servirão como verdadeira carapuça. Aqueles a quem a carapuça não servir certamente dirão: “é gratificante ler o que você grita baixinho em seu blog”.

Então vamos lá!

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

A arte do conhecimento

A arte de conhecer é a arte de inquietar-se. Quem busca conhecer acaba por inquietar-se diante de qualquer status quo, de qualquer modus operandi, de qualquer informação, de qualquer teoria. Por isso o aprendiz em busca do conhecimento muitas vezes é tido como rebelde, subversivo, alguém que se nega a rezar a cartilha da religião, do segmento científico, político, econômico ou social a que se vê ligado, quando na verdade é apenas inteligência que ascende acima do fazer diário para pensar o seu papel enquanto sujeito histórico, agente e transformador da realidade, para pensar suas crenças, os valores professados pela instituição ou classe à qual está ligado, seus valores pessoais e assim então ter uma visão imparcial e mais ampla de tudo. Em razão dessa conduta, sua forma de ver o mundo passa por uma metamorfose constante. Este blog é dedicado aos homens e mulheres que com sabedoria ultrapassaram a fronteira dos ‘ismos’, ascendendo à condição de grandes humanistas. E por seus exemplos as bandeiras da liberdade, da paz e da fraternidade estarão para sempre desfraldadas.

Antes de mais nada

Quero neste espaço virtual e democrático* apresentar alguns aspectos referentes ao ensino de Língua Portuguesa e Literatura do ponto de vista do aluno. Não apresentarei tese, ensaio, ou qualquer coisa do gênero, de autoria de um Mestre, Doutor, Pós-doutor ou coisa equivalente. Tão pouco coisa maçante, fruto de anos e anos de exaustivo trabalho de pesquisa, dedicação e suor. O que mostrarei aqui são considerações de um aluno que não gostou nada daquilo que encontrou pela frente no Curso Superior, mais especificamente no Curso de Letras. Você que é aluno de Curso Superior certamente encontrará neste espaço situações que por instantes o farão pensar: “é, eu já passei por isso também!” ou então: “é verdade, isso acontece muito!”. E isso não são palavras de um profeta, trata-se apenas de convicção de alguém que sabe que a frustração não é privilégio seu, mas sentimento de muita gente. Você que é profissional do ensino, professor(a), mestre(a), doutor(a) etc. certamente ficará magoado(a) com algumas afirmações aqui contidas, mas já adianto: só nos casos em que a carapuça servir. E eu espero sinceramente que, em seu caso, não sirva de jeito nenhum.

*Democrático porque eu falo de cá e você critica, elogia ou xinga de lá.